terça-feira, 18 de maio de 2010

Das Graças


Das Graças, morava num barraco, de graça. Herança do pai do marido que lhe abandonara, com 8 filhos. Presente da cegonha, dizia ela, em nove anos ininterruptos.

Sua vida primava pela acolhida da benevolência alheia, um acontecimento pouco habitual no mundo de hoje. O seu despertador eram os galos da vizinhança, mas só saia da cama, quando da certeza dos primeiros raios solares.

Abria a janela para recebê-lo, de graça. A todos que cruzavam o seu caminho, tinha pronto um bom-dia a ofertar, mais para poder receber do semelhante a recíproca. Se o transeunte, desapercebido não lhe devolvia o bom-dia, ela cobrava.

Os vizinhos, já acostumados a sua compulsão em pedir, comentavam à boca pequena, lá vai a Das Graças em busca da redistribuição de renda.

Diziam mais, de graça, Das Graças tomava lotação errada, levava injeção na testa, aceitava bilhete corrido, entrava em fila de tapa e até mordida de cachorro era bem-vinda.

Comentavam, eu não vi e não duvidei, que certa vez pediu a um homem, parado no ponto de ônibus, um cigarro. O motivo era o volume no bolso da camisa.

O cidadão, orgulhoso, pois há muito deixara o vício, tirou do bolso e mostrou-lhe o invólucro com um colírio. Das Graças não se intimidou pediu duas gotas nos olhos.

Alguns dizem que Das Graças recebeu as gotículas, outros afirmam que não. Pelo sim, pelo não, certeza tenho que Das Graças seguiu o seu caminho de pedição.

Noutra oportunidade, pessoa de minha confiança presenciou o fato e me contou que Das Graças chegou a uma mansão, dessas dos novos ricos, e iniciou o rol de suas necessidades.

Postulou primeiro, um prato de comida. Da dona da casa, ouviu não. Demandou a seguir por um quilo de arroz ou qualquer outro mantimento. Escutou novo não.

Solicitou uma roupa ou um agasalho, mesmo velho. Mais um não. Obsequiou por um pão velho. Irredutível, a proprietária, retrucou com evasiva negativa. Suplicou, por fim, um copo d’água. A madame de cílios postiços e plástica recente tentou terminar o diálogo, dizendo não ter também um copo d’água.

Mas quem encerrou a conversa mesmo foi Das Graças, dizendo :
- Óia dona, já que a senhora não tem nada, porque não vem pedir com nóis.

A velha rica, perdeu a graça, fechou o portão e adentrou, em passos de chilique, a sua residência de necessidades.

Das Graças continuou o seu caminho, de petição e miséria, mas cheia de graça e vida.

(14/06/1.995)

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