quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Dona Therezinha e Dr. Edgar Reis de Andrade



Dona Therezinha e Dr. Edgar Reis de Andrade

No próximo dia 13 de agosto Dona Therezinha de Jesus Queiroz de Andrade completará 90 anos de idade.
Esta data importante foi comemorada no dia de 30 de abril no Salão da Associação dos Gestores Fazendários do Estado de Minas Gerais (ASSEMINAS). Fica no bairro Floresta em Belo Horizonte.
A antecipação deveu-se ao lançamento do livro “Dignidade, seu nome EDGAR”, biografia do ilustre guidovalense Dr. Edgar Reis de Andrade, saudoso marido da Dona Therezinha.
O livro foi escrito, com emoção e detalhes, pela educadora Maria Auxiliadora Queiroz de Carvalho (Dorinha), irmã da aniversariante Dona Therezinha. Tentarei sintetizar as informações contidas no livro.

SOBRE O LIVRO
Dr Edgar Reis de Andrade nasceu no dia 6 de setembro de 1926. É filho de Sebastião Vieira de Andrade e D. Etelvina Reis de Andrade, tendo como irmãos Eurídes, Edson, Edilena, Élvia e Filomena.
Em 1940, com 14 anos incompletos, foi estudar o ginasial no Colégio Anchieta de Nova Friburgo – RJ, um seminário fundado em 1886 por irmãos jesuítas italianos da Província Romana.
Além dos intensivos estudos e a rigidez do prestigiado educandário, haviam as horas de lazer quando Edgar praticava esportes e aprendeu a tocar  bombardino, integrando a banda do colégio.
Após o término do curso do ginásio regressou à terra natal, ao distrito do Sapé, nome este logo depois mudado para Guidoval, em homenagem ao fundador Guido Marlière.
Além do descanso das férias escolares foi lhe dado um tempo para refletir se realmente tinha vocação para exercer o sacerdócio.
Mas o destino quis que ele conhecesse a bela jovem Therezinha Queiroz que conquistou o seu coração. O amor falou mais alto e encerrou a carreira de um futuro sacerdote.
Continuando os seus estudos foi para Viçosa onde fez o 1º e 2º ano do científico. Concluiu o 3º ano no Colégio Anchieta, em Belo Horizonte. Para ajudar a custear os estudos chegou a trabalhar até de Guarda-Noturno.
Depois, por dois anos cursou Direito em Juiz de Fora. Nesse período foi locutor de uma rádio local, pois possuía uma boa dicção e falava muito bem. Terminou o seu curso na Faculdade de Direito da Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, na época a capital do país.
Para bancar os seus estudos trabalhava no Banco de Crédito Real de Minas Gerais durante o dia e à noite era aluno de Direito.
Em 01/07/1955, Therezinha e Edgar ficaram noivos. E no final desse ano, em 19/12/1955, formou-se em Direito. Aluno brilhante, mereceu a honra de ser o “juramentista” da turma. E o fez em Latim, na solenidade de colação de grau.
Em 25/01/1958 casaram-se na Igreja Nossa Senhora da Conceição, hoje Santuário Arquidiocesano, no bairro Lagoinha-BH.
Desta união nasceram quatro filhos.
A primogênita, Maria de Lourdes, é odontóloga e professora na Faculdade de Odontologia da UFMG. Casada com Dr. Francisco Massara, têm duas filhas: Letícia e Luiza.
O segundo filho, Edson, formou-se em odontologia, mas o talento para a música levou a dedicar-se a esta nobre arte. É professor na Escola de Música da UFMG. Casado com a pianista Valéria Sheid Gazire. O filho Edson Sheid, assim como o pai, é um virtuose no violino. Reside em Nova Iorque.
A terceira filha, Margareth, é pedagoga e professora aposentada. Possui inúmeras habilidades artísticas. Casada com Luiz Alberto Prosdocimi.
O caçula, Fernando, é fisioterapeuta, especialista em Gerontologia. Casado com Renata Mara Martins Borges Queiroz. Têm uma filha: Cecília.
Dr. Egdar, logo que formou em Direito passou no concurso público para Delegado da Polícia Civil, mas só foi nomeado quatro anos depois.
E enquanto aguardava a nomeação foi trabalhar na cidade de Itanhomi-MG, onde advogou, foi professor de inglês e inspetor no ginásio local.
Empossado como delegado trabalhou em várias cidades mineiras: Carangola, Ubá, Leopoldina, Cataguases, Ponte Nova, Juiz de Fora e Belo Horizonte.
Por todas as cidades por onde trabalhou cultivou amizades e recebeu homenagens, comendas e títulos honorários.
Quando o Dr. Ozanan Coelho era Governador de Minas Gerais chamou o Dr. Edgar ao seu gabinete e lhe disse: “Eu estava pensando aqui comigo, você nunca me pede nada. Edgar, você quer ser Secretário de Segurança do Estado de Minas Gerais?”
Dr. Edgar recusou o honroso convite. Não era homem de ambições, e sim, de firmes convicções, sabia das implicações que isto geraria em sua vida pessoal e profissional. Resguardar, cuidar da Família era a sua primeira missão.
Diz a Professora Dorinha, autora do livro: “Sábio Dr. Edgar”. Concordo, plenamente.
Homem dedicado, devotado, de hábitos simples, instalou à entrada da porta principal de sua residência uma placa com inscrição em latim: “Parva Domus Magna Quies” que significa “Pequena morada, grande descanso”.
O amor, a paixão consegue proezas. Dr. Edgar, inspirado, fez uma bela poesia, em forma de acróstico, para a amada Therezinha. E não cansava de declamá-lo.

Dr. Edgar, mesmo sendo Delegado de Polícia, não usava armas. No lugar delas carregava um crucifixo que com fé e devoção acompanhou-o por toda a vida.

No livro a Mestra e escritora Dorinha descreve com emoção precisa:
Acometido pela “Síndrome de Guillan-Barré”, conseguiu superar a doença com a ajuda de médicos, enfermeiros e família. “Após a recuperação  foi junto com  Therezinha participar de uma Celebração de Ação de Graças por sua vida.”
“Quatro anos depois, apareceu um glioblastoma, um tumor maligno em local inoperável, de rápido crescimento, em sua maioria letal”. “Durante os subsequentes três meses de vida, a partir do diagnóstico, soube passar por todas as fases dessa enfermidade, demonstrando consciência do mal que sofria”. Enfrentou com resignação e altruísmo as adversidades da vida.
Um dia após completar 76 anos, na visita matutina no CTI, acompanhada da Therezinha, sua filha Margareth disse bem próximo ao ouvido do Edgar: “Papai, pode ir em paz. Cuidarei da mamãe como o senhor o faria, não deixando faltar-lhe atenção e carinho”.
“Era o que faltava para sua partida sem preocupação que o prendia ainda nessa esfera terrestre. O amor por sua companheira inseparável se expressou até o último segundo de vida. Em paz, ele nos deixou em 7 de setembro de 2002.”
“Margareth e a irmã Maria de Lourdes cumprem com fidelidade a promessa feita o pai. Assistem sua mãe com carinho, proteção, presença constante, dedicação indescritíveis, contando também com o suporte dos irmãos Edson e Fernando.”
Dr. Edgar faleceu um dia após completar 76 anos de idade em 07/09/2002.

SOBRE A FESTA (aniversário e lançamento do livro)
No dia 30 de abril de 2017 Dona Therezinha convidou os familiares e amigos para o lançamento do livro “Dignidade, seu nome EDGAR” escrito pela sua irmã Dorinha. Aproveitou a ocasião para comemorar o seu aniversário de 90 anos.
A reunião esteve perfeita. Um buffet impecável, boa música, confraternização, quando todos brindaram à vida de Dona Therezinha e à memória do inesquecível Dr. Edgar.
A admiração que tenho pelo casal é vitalícia e hereditária. A amizade é familiar. Vem desde a juventude do meu saudoso pai Zizinho e minha mãe Dona Tita, contemporâneos e conterrâneos de Dr. Edgar e Dona Therezinha.
Em 2007, quando Dona Therezinha completou 80 anos ela teve a gentileza de nos convidar, minha esposa Lourdes e eu, para a comemoração. Convite que muito nos honrou por pertencermos ao grupo de seus amigos.
Dona Therezinha pediu que quem quisesse presenteá-la deveria fazer em forma de doação à Sociedade São Vicente de Paulo de Guidoval. Arrecadou-se uma boa quantia que foi utilizada para a instalação de forro, em PVC, na sede desta respeitável instituição de caridade. É assim Dona Therezinha, bondosa, católica, cristã, mãe exemplar, sempre disposta a servir ao próximo. Uma boa alma.
 Agora, na festa dos seus 90 anos, Lourdes e eu, fomos novamente convidados. Reencontrei bons e velhos amigos como o José Joaquim Nogueira e a esposa Margarida, Sebastião Avidago Andrade e a esposa Heloísa Occhi, Gildinha e a filha Maria do Carmo Marota, Leise Meireles, Elísio Avidago Andrade e a esposa Fátima Pereira, José Lincoln e Marina (Freira) irmãos da Dona Therezinha. A escritora Dorinha, junto ao marido Líbero e filhas. A professora Edilena e a Élvia Reis Andrade, irmãs do Dr. Edgar.
Discursaram, com a verve de sempre, os queridos amigos Dr. Gérson Occhi, Dr. Plínio Meireles e a minha querida Professora Élvia. Em nome da família da Dona Therezinha falou a linda neta Cecília.
Foi uma cerimônia emocionante, de boas e (e)ternas lembranças, quando celebrou-se à vida de Dona Therezinha e à memória e saudade do Dr. Edgar magistralmente registrada pela Professora e Escritora Maria Auxiliadora Queiroz de Carvalho (Dorinha) no livro “Dignidade, seu nome EDGAR.
Dona Therezinha e Dr. Edgar um casal admirável, orgulho dos guidovalenses. 







terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Terceira Margem do Rio (Guimarães Rosa)



A Terceira Margem do Rio
(Guimarães Rosa)

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias",
(Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32)

A TERCEIRA MARGEM DO RIO (Guimarães Rosa), por José Miguel Wisnik

A terceira margem do rio - Guimarães Rosa

GUIMARÃES ROSA: A TERCEIRA MARGEM DO RIO | YUDITH ROSENBAUM


domingo, 30 de abril de 2017

Um pouco sobre a música Fascinação



FASCINAÇÃO
Com Elis Regina

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção
Com sofreguidão mil venturas previ...

O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria e entontece
És fascinação, amor

Com Nat King Cole

It was fascination I know,
and it might have ended
Right there at the start,
Just a second glance,
Just a brief romance,
and I might have gone on my way,
Empty hearted

It was fascination I know,
Seeing you alone
in the moonlight above,
Then I touched your hand
and next moment
I kissed you,
Fascination turned to love...

# # # # # # #

Com Edith Piaf

Je t'ai rencontrée simplement,
Et tu n'as rien fait pour chercher à me plaire,
Je t'aime pourtant
D'un amour ardent,
Dont rien, je le sens, ne pourra me défaire.
Tu seras toujours mon amante
Et je crois à toi comme au bonheur suprême.
Je te fuis parfois, mais je reviens quand même.
C'est plus fort que moi: Je t'aime!


Um pouco sobre a música FASCINAÇÃO


    A música original chama-se “Fascination” e é uma popular canção francesa escrita em 1905 por Maurice de Féraudy (1859-1932) e Dante Pilade “Fermo” Marchetti (1876-1940).

Em  1943, Armando Louzada traduziu a canção para o português,  sendo interpretada por Carlos Galhardo,   em gravação feita no mesmo ano.

A música esteve presente na trilha das novelas “Fascinação” (1998 – duas gravações: Carlos Galhardo e Nana Caymmi), “O Profeta” (2006 - Elis Regina) e “O Casarão” (1976 - Elis Regina).
Em 1976, no aclamado álbum "Falso Brilhante", Elis Regina fez o seu registro da canção.

"Fascinação" tornou-se, desde então, uma das interpretações mais reconhecidas de Elis.

Mais tarde, Nana Caymmi  regravou a canção para a telenovela do mesmo nome,  exibida em 1988 pelo SBT.

Em 2007, a versão em francês integrou a trilha-sonora de "La Môme"  (no Brasil, Piaf - Um Hino ao Amor), filme baseado na vida de Edith Piaf. 

Quando Armando Louzada fez a versão, incluiu uma segunda parte, cantada com a mesma linha melódica da primeira parte, que é mais conhecida:

Escrita em 1905, Fascinação  foi traduzida para a língua inglesa por Dick Manning em  1932.

Em 1957 foi interpretada por Jane Morgan na trilha-sonora do filme estadunidense "Love in the Afternoon"  (no Brasil, Amor na Tarde), estrelado por Audrey Hepburn.  A canção foi mais tarde regravada por Dinah Shore, Nat King Cole e pelo maestro francês Paul Mauriat.