terça-feira, 1 de setembro de 2020

Se Essa Rua Fosse Minha... (escrito pelo poeta José Francisco Barbosa)

 

Se Essa Rua Fosse Minha...

(à minha neta Júlia, fonte de minha inspiração)

 

(escrito pelo poeta José Francisco Barbosa)

 

Ao ver minha neta ninando sua boneca com a cantiga acima, por alguns instantes, meus pensa­mentos vagaram. A caixa filmadora e gravadora de meu cérebro rodaram rapidamente à minha frente. Assisti ao filme. Eu era espectador e protagonista. Não há cortes. Era julho. Esquina do Sr. Dionísio empoeirada. Um mastro com a imagem de Nossa Senhora Sant’Ana tremulando no alto. Uma fogueira recheada com algumas batatas doces. Alguns esperando que da fogueira restem apenas brasas para pisá-las com os pés nus, numa demonstração de sua fé.

O comando do Benedito no mais autêntico congado. Gorros enfeitados de espelhos redondos, espadas reluzentes ao clarão do fogo.

Encostado à parede da casa do Dr. Mário, uma barraca com chocolate, quentão e canjica. No bar do Caputo, alguém pede "mais uma". Desço um pouco pelo Fundão. Paro num salão de piso de tábuas corridas, onde o perfume indefinível faz parte de mim, assim como é o cheiro de minha carteira do Grupo Escolar Mariana de Paiva, friccionada pela borracha de apagar. Não sai.

Neste salão, admiro um velho, cuja cabeça me parecia uma pluma suave, valorizada por um sorriso aberto e umas mãos mágicas rodeado de uma platéia. Que platéia! Cada um patrocinava um convidado. Terezinha Reis, Sô Odilon, Zé do Gil, Bigica, Márcio Barbosa, Sô Lau, Landim, Mundico, Manga Rosa, Renatinho, Bebeto e tantos outros, que como ninguém, valorizavam o deslizar dos dedos de um artista nas cordas de um violão, de um violino ou de um banjo com suas vozes suaves e encantadoras. Saudades de vocês, Sô Nilo, Sô Odilon... E o filme desce um pouco mais pelo Fundão quando vejo uma placa "Cartório de Paz". Sinto-me envolvido no calor do ventre materno. Que delícia! Foi ali, lá em cima, onde respirei o primeiro ar com meus pulmões. Vovó Elisa, ainda sinto o deslizar de suas mãos abençoadas em meu corpo. O filme e o tempo passam neste lugar. As brincadeiras com o Babá (onde você está?), o cheiro deixado pelos primeiros baldes de água jogados na rua pelo Jésus Ribeiro para eliminar a poeira, as noites bem disputadas de buraco com Sr. Sebastião Vieira, as nossas confidências, Élvia. O tio Nely a me colocar dentro de um pneu dando-me aquele impulso Fundão abaixo... Que maravilha.

Ainda é julho e bem lá embaixo no Fundão, ouço uma música de qua­drilha e a voz cadente, encanta­dora, entremeada de boas expres­sões em francês, marcando a quadrilha. Seu Antônio Queiroz, como isto me marcou! Quanto ciúme me causava o "cada um com seu par" de meu primeiro amor (ela não sabia).

De repente, sinto um cheiro gos­toso de remédio manipulado. Lá de dentro, surge um homem alto, mãos limpas, conversa agradável, conheci­mento de tudo. Era nossa consulta. Era nossa enciclopédia. Seu Trajano, onde está aquele banquinho?

Eu adormeci. Fiquei a vaguear. Sonhei. Defrontei-me com o "Espírito Perfeitíssimo, Eterno, Criador do Céu e da Terra" que você, Tia Sinhá, havia me apresentado aqui e que aprendi a amar.

Repetidas vezes, minha neta cantava: "se essa rua, se essa rua fosse minha / eu mandava, eu mandava ladrilhar / com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes / para o meu, para o meu amor passar".

Acordei lentamente. Nos lábios eu tinha uma expressão de felicidade.

No travesseiro, encontrei umidade. Meus olhos merejavam.



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