segunda-feira, 30 de junho de 2014

Carta recebida do Dr. Wilton Franco em 29/06/1976



Carta recebida do Dr. Wilton Franco em 29/06/1976

São Paulo 27.6.76

Caro amigo Ildefonso.

Foi na histórica data de 29 de JUNHO que nasceu o robusto “baby” Ildefonso, mais tarde Dé para o público em geral e das arquibancadas.
A princípio, era um garoto ensimesmado, com ares interrogativos e distante. Assim como se olhasse a plebe ignara como habitantes de uma outra constelação...
... mais tarde o gosto pela música e a inclinação para o lirismo poético, impregnaram aquela alma misantrópica com matizes mais descontraídos e cores amenas e alegres deram à sua personalidade um toque  mais pop.
Ele então passou a compartilhar, em parte, com os de suas origens.
Procurou farejar o gosto e cheiro do povo levado por um misto de procura, boemia, curiosidade, aventura romântica, resquícios primitivos, índole caprichosa, amor, desilusão, idealismos latente com crises periódicas de erupção, indolência silvícola, espírito comunitário... etc.
Porém, todavia, senão, contudo, aliás, guardou a sete chaves a entrada do portão principal de sua morada.
Seu recanto particular continuou sendo uma terra exclusiva, onde, vagamente de vez em quando, permitia uma penetração efêmera que não possibilitava maiores vislumbres.
Defesa? Medo? Segurança? Insegurança?
Só sei que ele continua “se imolar” e vagar pelos seus mares na ânsia de superar o obstáculo que o fará nascer em definitivo para a posição que sonha ocupar.
Sendo um puro tem entrado em contradição com certos padrões sofisticados que ora o atrai e ora o distrai.
Sua fome interior ainda não foi saciada e, por motivos circunstanciais, se desajusta, de desloca, de desequilibra, se envolve.
Nele prevalece muito do sensorial, e de racional, envolto por pinceladas de sentimentalismos ou de sentimental camuflado.
Ele agora está correndo, entende a necessidade do mergulho na fonte da purificação suprema.
Porém, não se apercebeu de todo que a evolução é lenta e, sobretudo consciente. Assim que se imbuir do justo momento de frear, sem receios, sem temer enfrentar os opostos, eis que emergirá em forma concreta a estrutura base...
... sobretudo um amante da vida.
... Néctar dos deuses.
Meu caro amigo, sei que o momento não é hora para divagações pseudo-filosóficas em torno da sua pessoa.
Pois, antes de mais nada, estou aqui para abraçá-lo e reafirmar os convencionais VOTOS DE FELICIDADES no alvorecer de seu dia particular (29 de junho).
Digo convencionais porque já se “instituiu” desejar Felicidades ao semelhante, porém por trás da palavra felicidade esta o conjunto de detalhes ou um único detalhe que estimula esta cobiçada sensação. Vai daí que refiro esse estado de alma não só no dia 29 de junho como nos subseqüentes.
Sobretudo porque comemorar Aniversário tem a marca do Início de uma nova Estação; é a natureza se renovando, se ajustando ao clima, o estigma de um período que se delineia.
Logo sempre é tempo de recomeçar. Sem esse devotamento incondicional ao deus Baco.

Que te passa homem?
em que profundezas queres sentir,
em que plano ou dimensão procuras?
em que lago ou floresta tu te escondes.

Será intensidade ou dispersão.
Que problema maior te aflige
nas solitárias e noturnas horas!
Vejo-te assim há algum tempo...

Vê no que dá a ausência de conhecimentos concretos e de fatos contemporâneos sobre a vida dos amigos!
A linguagem passa a ser simbólica e especulativa.
Um tiro no escuro.
As deduções se baseiam em expressões faciais, corporais e atitudes temporais; tudo em ais.
A essência escapa por onde perambula ou mesmo se está acampado em alguma colina.
Quem sabe radicado nos eflúvios e mananciais da noite, companheira velada, dissimulada, prostituta, num “trotoir” errante pelos becos, mesas, bares e garrafas.
À espreita!
Ou um caçador sem armas que embrenha pela mata à cata de fortes emoções e aventuras diferentes; tudo se resume num amontoado de perguntas sem respostas.
No porão vai acumulando experiência ou inexperiência.
Como é que fica?
Olha Dé, desculpa mais uma vez essa enchurrada ou enxurrada de palavras atiradas ao léu.
Na verdade, de tudo fica a minha ignorância sobre os seus “anseios e frustrações” atuais, o desejo de me informar sobre eles (viva a era da comunicação!), o desejo de que você se equilibre o máximo nesta dança do ventre que é a vida.
Você tem me parecido preocupado, como que atingido por algum acontecimento que lhe amarra os movimentos mais naturais.
Talvez, seja impressão infundada de minha parte. De qualquer maneira o importante é que você vença este adversário.
Sempre se consegue quando ainda há vida e, dentro de você, há muita semente para germinar, muitos frutos por colher, muitas estradas por abrir, muitas batalhas por enfrentar, muitas serras por subir.
Confio no seu preparo físico, discernimento, capacidade de luta e vontade de viver.
Tudo isso recordo nesta data magna porque ela é o ponto de referência mais concreto de nosso avant-première na terra.
Desde então muita água jorrou e muito solo há por cultivar.

Aqui planto o meu abraço.
Felicidades.
Do amigo
Wilton


PS: as pessoas normalmente não respondem cartas de cumprimentos por ocasião do Aniversário.
Mas como você vê esta foi mais que uma missiva congratulatória, logo espero poder receber (em) breve notícias e manchetes de seu ritual cotidiano.
Até breve.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Copa do Mundo 2014 na Savassi – BH

Copa do Mundo 2014 na Savassi – BH

Em Belo Horizonte, a Savassi é um dos locais preferidos para as torcidas de todos os times e países.  
 
Ontem, após o jogo dos EUA contra a Alemanha, foram flagrados pela reportagem do Jornal Alterosa a minha filha Thaís Ribeiral Vieira, a minha sobrinha Fernanda Vieira Géa Williams casada com o americano Landon Williams que trouxe os amigos  Sean Mulcahey e Tommy Talmadge para festejar aqui em BH a Copa do Mundo de 2014. 



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Resposta da Maria das Graças (Gagaça) dos Santos Carmo ao e-mail do Plínio



Resposta da Maria das Graças (Gagaça) dos Santos Carmo ao e-mail do Plínio

O Plínio não tem noção do tamanho da emoção que estou sentindo ao ler estas suas palavras tão carinhosas e amigas.

Vou lhe dizer, Plínio, não sei se você se lembra quando nos encontramos na casa da vó feinha , em 2001, e você comentou comigo sobre esta força do responsório rezado por ela.

E me lembro bem que você me disse assim: você é a herdeira de sua avó.

Seu jeito me diz isto. Não sei como você conseguiu, mas tenho uma carta sua datada de 24 de abril de 2001- ano deste encontro em Guidoval e junto você me mandou duas versões do responsório de Santo Antônio, lembra-se?

Na carta você diz: "...mesmo que não seja aquela rezada por sua avó, acho que surtirá efeito quando rezado por você que, certamente, é a herdeira da tradição.

"Guardo com muito carinho a oração para achar objetos perdidos e os dois Responsórios de Santo Antônio e posso lhe dizer que já consegui graças com ele.
E a sua carta é, para mim, um documento muito importante que será sempre guardada também com muito carinho, pois você sempre foi e será um amigo -irmão de nossa família.

Vou tentar postar aqui, se você permitir, cópia da sua carta e as duas orações do responsório de Santo Antônio, uma, impressa em gráfica, linda, e outra, copiada com sua letra.

Obrigada pelas palavras tão gentis referentes a minha família e um grande abraço a todos os seus. Até mais.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

e-mail recebido do Dr. Plínio Meireles sobre as histórias da Gagaça



e-mail recebido do Dr. Plínio Meireles sobre as histórias da Gagaça

Realmente tudo o que a Maria das Graças comenta são também sabores e lembranças muito gratas para mim.

Começando pela D. Feinha, dela não somente tenho uma boa lembrança como também uma gratidão por um feito muito importante para mim, que veio através dela.

Não sei quantos sabem, mas a D. Feinha era uma rezadeira de muito poder.

Uma de suas especialidades era o Responsório de Santo Antonio. No ano de 1980, precisamente no mês de maio, depois de retornar de uma viagem a trabalho da cidade de Minas Novas - MG, constatei que a minha gaita de boca havia desaparecido. Sempre a levava comigo nas minhas viagens, mesmo que não fosse soprada nem uma vez.
Mas, era uma companhia. No mês de junho seguinte fui a Guidoval e visitei uma grande amiga, a Cesarina Coelho, irmã do Vianelo Coelho da Serra da Onça. Lá ela me comentou que pouco antes de eu chegar ela tinha recuperado uma toalha bordada que desaparecera no dia do velório da sua mãe, a D. Júlia, seis meses depois que mandara "Responsar para Santo Antonio", como se dizia, ou ainda se diz. Eu ainda sentia a falta e tinha uma tristeza pela perda da minha gaita, não somente pela qualidade do instrumento, uma Honner alemã, mas também por se tratar de um presente que meu pai me dera no ano de 1963.
Pensei também em mandar "Responsar". Ao retornar para a casa da minha tia Gildinha perguntei-lhe se sabia de alguém que rezasse o tal Responsório. Imediatamente ela me disse que a sua vizinha, a D. Feinha o fazia. No mesmo ritmo me dirigi à casa dela que prontamente se dispôs a fazê-lo.
O tempo passou e em fevereiro de 1981 me mudei com a família de Belo Horizonte para Brasília. Lá pelo mês de abril o meu filho Erick havia escrito uma carta para a sua professora primária da escola Ondina Amaral em Belo Horizonte.
Perguntei-lhe como a enviaria se não tinha o endereço. Ele então me respondeu que tinha e estava numa bolsa onde eu guardava umas cartas de antigas de namoradas, uma bolsa fina, que eu mesmo acondicionara em uma caixa juntamente com cobertores novos na época da mudança.
Ao colocá-la na caixa nada havia de especial. Mas logo ao tomá-la em busca do endereço, notei um peso diferente. Ao abri-la, a surpresa: lá estava a minha gaita, um ano depois do seu desaparecimento. Não havia recebido visitas nesse período. Um fato realmente inusitado. Sem explicação convincente. Somente o Responsório de Santo Antonio, rezado pela D. Feinha.
Milagre? Não sei o que responder. Mas sei de pelo menos mais dois casos de coisas desaparecidas e que reapareceram depois do "Responsório de Santo Antonio".
Quanto aos demais relatos, sempre tive estreitas relações de amizade com a sua família. Tinha longos papos com a D. Jovita que me dava muita atenção, eu apenas com quinze ou dezesseis anos.
Da D. Ruth, já fiz diversos comentários. Do Sr. Benjamim, me lembro dele em dias de chuva, depois dos relâmpagos, subindo nos postes para religar a chave caída, a fim de que a cidade não ficasse sem luz. Do Mundico, também já comentei como ele aprontava não somente com crianças mas também com adultos. Ele, por si só merece um estória de muitas páginas. Uma última que me disse em sua casa quando lhe perguntei pelo seu cunhado Benjamim, respondeu assim: "como dizia o Quinzim Pinto, morreu, mas está bem".
Também me lembro bem da lojinha da D. Sinhaninha e do circo Bartolo. A garotada pré adolescente era encantada com a atriz trapezista "Mascotinha". Que bom que sempre alguém nos faz recordar coisas boas da nossa terra



Coisas que eu guardei - sabor de infância



Coisas que eu guardei - sabor de infância
Gosto bom!

Maria Das Graças Santos Carmo

Os pés- de moleque da vó Feinha. Chicletes que mascávamos durante as missas de domingo comprados no bar da esquina com o dinheiro que deveríamos dar no ofertório.

Ler o jornal de cabeça para baixo que estava em cima do balcão da padaria, na rua do Fundão, enquanto esperava o pão que vinha quentinho lá de dentro.

Cortar cabelo com a tia Ruth quando ela ia a Guidoval.

Os remédios do dr. Mário para combater os vermes.

Os bicos-de-bala da tia Maria do Carmo.

Os doces que vó Jovita guardava no seu quarto. A "manteiga com pão" que tia Lourdes preparava para o Carlinhos no café da manhã.

Aulas de Matemática com o Fabiano na casa da vó Jovita.

Venda dos Estulano. Grampinhos de cabelo comprados na farmácia do senhor Heraldo.

Os brinquedos da loja da Sinhaninha. Comprar tecido era na Casa Sampaio.
Barracas das festas de Sant'Anna na esquina do Fundão com a Rua do Campo.

Os doces e licores nos aniversários do padrinho Mundico.

As cédulas dos candidatos políticos que minha vó Feinha guardava debaixo da toalha da mesa.

A folhinha do Coração de Jesus pendurada na porta do quarto.

O Paulinho debruçado sobre a mesa, em cima do prato de cajuzinhos, nas festas de aniversário.

Circo do Bartollo.

O piano de Lili.

A alta-costura de minha mãe.

A escada e os postes escalados por meu pai Benjamin.

O café com leite da noite preparado por minha avó. O amendoim que meu avo debulhava para fazer os pés-de-moleque.

A fogueira e o mastro de Santo Antônio nos aniversários de meu avô Tianinho.

Centro Espírita na Rua do Sacramento.

A despedida dos primos, que moravam fora,no final das férias de julho...

Era infância! Tudo era tão doce!

Gosto bom até hoje!

O que não contei, continua tão doce quanto.

O Morro da Sá Lódia



O Morro da Sá Lódia

No meio do caminho tinha um morro. Tinha um morro no meio do caminho.

Começo assim porque entre todos os laços que me unem a minha terra natal, está o morro da Sá Lódia.

Pode parecer banal!

Buscar uma rima para ele? Difícil!... Mas não importa, pois Sá Lódia rima mesmo é com infância, sonho, emoção, brincadeira de criança e até mesmo coração. Meu coração!

Ele ainda era descalço como eram todas as ruas de Guidoval, mas era tudo o que eu queria, pois quando ali passava, acompanhada por minha avó ou sozinha, era nos seus veios rasos ou profundos, desenhados pela água da chuva que escorregava morro abaixo que eu, na minha inocência de criança, mas já sonhadora e cheia de imaginação, escondia os meus segredos ainda inocentes, mas só meus! Minhas vontades frustradas! Meus desejos irrealizáveis como me livrar da letra espelhada que me perseguiu no primeiro ano de escola! Minhas visões fantásticas criadas durante a noite! 

Rabugices! Até "O Piano de Lili", quando fui para o segundo ano de escola, deixei guardado nos veios do morro da Sá Lódia...

Era nele que eu encontrava o labirinto perfeito para guardar tudo o que eu já vivera; tudo o que era sonho e segredos da minha imaginação.
 
Era pelo morro da Sá Lódia que eu subia com passos firmes para ir à escola, encontrar a mestra D. Odete Vieira, aquela que com verdadeiro amor me ensinou, com sabedoria e magia os valores iniciais da minha vida. Era por ele que passava para ir à casa de Sant'Ana , nos fins de semana com minha avó, ou à loja da dona Sinhaninha, todos os dias - precisasse ou não- comprar alguma coisa para vó feinha. Lá estava tudo que realizava os sonhos de uma criança.

Parecia casa de boneca! Na loja da dona Sinhaninha eu deixava nossas cartas para o papai noel.

Por que falar do morro da Sá Lódia? Muitos devem estar se perguntado. É que nos tempos de hoje, só me resta costurar sonhos, brincar de bordar histórias, de desatar nós e laços que ainda me unem ao morro da Sá Lódia, pois o que eu não carreguei comigo quando vim de lá, ainda está, certamente, dentro dos veios e labirintos da terra antiga que , hoje, coberta de asfalto, não tenho como resgatar.

Mas a imagem de Sá Lódia, responsável pelo nome daquele morro,continua envolta em simplicidade e sabedoria de uma figura humana sem igual, e que jamais vai se perder, pois ela veio comigo.

Caçadas do Mundico



Caçadas do Mundico

Maria Das Graças Santos Carmo


Caçar era uma de suas paixões.

Fechava a oficina às quatro da tarde. Entrava em casa assobiando, se metia no "quarto de banho" onde estava sua parafernália de caça: a calça e a camisa de brim verde; o "bate-bute"- apelido que ela dava ao par de botas de couro; a espingarda que ficava sempre dependurada atrás da porta; o quepe que era cuidadosamente ajeitado na cabeça; o cinturão com as munições;a mochila de lona onde eram colocadas as aves abatidas e o que não podia faltar  o apito que reproduzia o som de vários aves, entre elas o nambu, seu preferido nas caçadas.

O camelo- era assim que chamávamos sua velha bicicleta- era o companheiro de todas as tardes.E lá iam eles: Mundico, Elzo e quem mais quisesse e pudesse.
Quando a noite já tinha descido sobre Guidoval, voltavam eles trazendo a caça para reforçar o jantar:nambus, marrecos e outras aves mais, cujos nomes só ele sabia.
 
Eu, que naqueles tempos morava com minha avó e meus irmãos que em tempos de férias escolares iam para lá, ajudávamos vó Feinha a depenar as avezinhas e já disputávamos quem comeria as coxas ou o peito, pois era só o que se aproveitava.Se a ave era maior, as penas viravam brinquedo, pois fazíamos petecas com palha de milho ou embira de bananeira e nos divertíamos na grama da praça.

Em noites de Lua cheia, as caçadas eram mais longas.Penso que o derramar dos raios da Lua sobre a mata e sobre eles, o fantástico e o mistério que fazem parte do verde profundo das matas causavam um efeito de paixão e desejo e amenisavam o cansaço do dia de trabalho. Devia ser uma emoção que só sentia quem vivia a realidade de ser parte integrante da exuberância da mata e de seus quase intocáveis habitantes.

Essa rotina só mudava quando decidiam trocar a espingarda pela vara de anzol.E então, era o tempo das piabas, dourados, lambaris,traíras que, se eram em abundância, adormeciam por algum tempo congelados até que uma visita importante fosse almoçar com a família.As aves e os peixes eram para ele um troféu!