terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Terceira Margem do Rio (Guimarães Rosa)



A Terceira Margem do Rio
(Guimarães Rosa)

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias",
(Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32)

A TERCEIRA MARGEM DO RIO (Guimarães Rosa), por José Miguel Wisnik

A terceira margem do rio - Guimarães Rosa

GUIMARÃES ROSA: A TERCEIRA MARGEM DO RIO | YUDITH ROSENBAUM


domingo, 30 de abril de 2017

Um pouco sobre a música Fascinação



FASCINAÇÃO
Com Elis Regina

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção
Com sofreguidão mil venturas previ...

O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria e entontece
És fascinação, amor

Com Nat King Cole

It was fascination I know,
and it might have ended
Right there at the start,
Just a second glance,
Just a brief romance,
and I might have gone on my way,
Empty hearted

It was fascination I know,
Seeing you alone
in the moonlight above,
Then I touched your hand
and next moment
I kissed you,
Fascination turned to love...

# # # # # # #

Com Edith Piaf

Je t'ai rencontrée simplement,
Et tu n'as rien fait pour chercher à me plaire,
Je t'aime pourtant
D'un amour ardent,
Dont rien, je le sens, ne pourra me défaire.
Tu seras toujours mon amante
Et je crois à toi comme au bonheur suprême.
Je te fuis parfois, mais je reviens quand même.
C'est plus fort que moi: Je t'aime!


Um pouco sobre a música FASCINAÇÃO


    A música original chama-se “Fascination” e é uma popular canção francesa escrita em 1905 por Maurice de Féraudy (1859-1932) e Dante Pilade “Fermo” Marchetti (1876-1940).

Em  1943, Armando Louzada traduziu a canção para o português,  sendo interpretada por Carlos Galhardo,   em gravação feita no mesmo ano.

A música esteve presente na trilha das novelas “Fascinação” (1998 – duas gravações: Carlos Galhardo e Nana Caymmi), “O Profeta” (2006 - Elis Regina) e “O Casarão” (1976 - Elis Regina).
Em 1976, no aclamado álbum "Falso Brilhante", Elis Regina fez o seu registro da canção.

"Fascinação" tornou-se, desde então, uma das interpretações mais reconhecidas de Elis.

Mais tarde, Nana Caymmi  regravou a canção para a telenovela do mesmo nome,  exibida em 1988 pelo SBT.

Em 2007, a versão em francês integrou a trilha-sonora de "La Môme"  (no Brasil, Piaf - Um Hino ao Amor), filme baseado na vida de Edith Piaf. 

Quando Armando Louzada fez a versão, incluiu uma segunda parte, cantada com a mesma linha melódica da primeira parte, que é mais conhecida:

Escrita em 1905, Fascinação  foi traduzida para a língua inglesa por Dick Manning em  1932.

Em 1957 foi interpretada por Jane Morgan na trilha-sonora do filme estadunidense "Love in the Afternoon"  (no Brasil, Amor na Tarde), estrelado por Audrey Hepburn.  A canção foi mais tarde regravada por Dinah Shore, Nat King Cole e pelo maestro francês Paul Mauriat. 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Carnaval, Quaresma e Semana Santa (Penitência, Promessa ou Jejum)



Carnaval, Quaresma e Semana Santa
(Penitência, Promessa ou Jejum)

No carnaval de 1976, a pedido do Tilúcio, eu fiz o primeiro samba-enredo para Agremiação Calouros do Samba homenageando o ritmista “Henriquinho” cujo refrão repetia o seu bordão “És filho de Medeiros, Sim Senhor!
Depois fiz outros sambas. Sempre falando da nossa gente, das coisas da nossa terra.
ü  Domingos (1978)
ü  Salve, ó Chopotó! Salvem o Chopotó (1979)
ü  Guido, este vale é teu (1980)
ü  Vestígios e Falência de nossas Festas, Cultura e Tradições (1982)

E foi no carnaval de 1976, mais precisamente numa quarta-feira de cinzas, dia 03 de março, que finda a folia momesca no Clube Francisco Campos, após o toque da tradicional marchinha “Cidade Maravilhosa”, amanhecendo o dia, fomos para o Bar da Esquina comentar as paqueras, os foras, os “amassos”, os beijos roubados e fugidios.
Empanzinados de bebidas alcoólicas, pedimos ao Tarcísio Caetano água mineral, sem gás, para acompanhar a conversa.
À mesa, amigos de infância: os irmãos Ronaldo e Roberto Vieira do Geraldo Didu; Gonzaga e Jorginho (Cariá) do Duzin Vieira; o Téia do Bié Linhares, o Adautinho do Adauto Ribeiral. Pode ser que tivessem presentes outros amigos, mas no momento me fogem à memória.
E a prosa se estendeu, prolongou, fluiu... Por volta das 8 horas da manhã, cansados de beber água pedimos uma cerveja. E mais uma e mais outra e outras mais...
Sei que cheguei em casa por volta das duas horas da tarde. Levei uma homérica bronca do Zizinho do Marcílio, meu saudoso pai. Tinha ele toda razão. Os pais sempre têm razão, mas só descobrimos isto muito tarde.
Só acordei na tarde de quinta-feira. De ressaca, até moral, pela reprimenda paterna. Consegui murmurar para os meus botões “ficarei sem beber na Quaresma”.
E foram dias difíceis para quem estava acostumado a beber, todos os dias, umas cervejinhas e até pinga, caipirinha e conhaque.
Mantive em segredo a minha intenção. Não contei a ninguém. Cumpri a promessa que fizera a mim mesmo. Não tinha nenhuma conotação religiosa, penitência ou jejum.
Acho que eu queria mesmo era dar um descanso ao fígado e, talvez, saber o quanto eu estava dependente do álcool.
Não foi fácil. Passados uns 15 dias começou uma coceira pelo corpo, comichão, prurido, cabufira. Deve ter sido a falta de álcool no organismo. Cheguei a rabiscar um calendário com contagem regressiva para saber quantos dias faltavam para terminar a abstinência.
Agora, passados mais de 41 anos, continuo com este ritual de não beber durante a quaresma. Não mais padeço pela privação da bebida alcoólica. Passo por este período com tranquilidade mesmo que vez ou outra eu tenha o desejo de beber uma cerveja ou uma taça de vinho.
Sobrevivi a aniversários, festas de casamentos, bufês especiais, temporadas em praia, batizados e velórios. Tudo isto a seco.
Ao longo deste tempo, muitos amigos me acompanharam nesta empreitada. Alguns desistiram no meio da caminho. Um solidário, até o fim, nesta privação foi o amigo “Milin” filho do saudoso Tatão Peru. Este amigo para abastecer o nosso primeiro gole, armazenou cachaça dentro de um coco-da-baía e o deixou descansar quietinho no fundo da caixa d’água da sua casa. O primeiro brinde com a preciosa bebida ocorreu no extinto Bar Kai-Terra no Fundão. Ainda guardo, na memória, o delicioso gosto da “água que passarinho não bebe”. O sabor do primeiro gole foi indescritível.
Nunca considerei sacrifício ficar este intervalo de tempo sem ingerir álcool. Beber a minha cerveja preferida é um dos bons prazeres que a vida me reserva. Mas não tem preço amanhecer o dia sem os efeitos de uma carraspana.
Acontece que dentro de nós habitam um “capetinha” e um “querubim” intrometendo-se a todo instante na nossa vida.
Depois de uns 25 anos ficando sem beber, da Quarta-feira de Cinzas ao Sábado da Aleluia, o “traquinas” que mora em mim envenenou-me dizendo que “quaresma são 40 dias e você fica 46 sem beber?”.
Recorri aos dicionários Aurélio e Houaiss. Consta:
“Os 40 dias que vão da quarta-feira de cinzas até domingo de Páscoa, destinados, pelos católicos e ortodoxos, à penitência; quarentena” (Aurélio)   e   “período de 40 dias, da Quarta-Feira de Cinzas até o Domingo de Páscoa” (Houaiss).
ERRO do Aurélio e do Houaiss. São quarenta e seis dias da Quarta-feira de Cinzas até o Sábado de aleluia.
Para melhor me esclarecer fui à Bíblia editada pela CNBB e que eu converti em livro digital (ebook). Encontrei 195 citações com a palavra “quarenta”, mas não há nenhuma referência à palavra QUARESMA que sequer é citada na Bíblia.
Consultei o Google e o melhor conceito que encontrei para QUARESMA foi “começa na Quarta-feira de Cinzas e termina no Domingo de Ramos, anterior ao Domingo de Páscoa”.
E complementa com “durante os quarenta dias que precedem a Semana Santa e a Páscoa, os cristãos dedicam-se à reflexão, à conversão espiritual e se recolhem em oração e penitência para lembrar os 40 dias passados por Jesus no deserto e os sofrimentos que ele suportou na cruz”(...).
“Cerca de duzentos anos após o nascimento de Cristo, os cristãos começaram a preparar a festa da Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum. Por volta do ano 350 a Igreja aumentou o tempo de preparação para quarenta dias e foi assim que surgiu a Quaresma.”(...)
“O dia da Páscoa foi estabelecido por decreto do Primeiro Concílio de Niceia (ano de 325 D.C), devendo ser celebrado sempre ao domingo após a primeira lua cheia do equinócio da primavera (no Hemisfério Norte) e outono (no Hemisfério Sul).”
O “traquinas”, o anjo gênio do mau, estava correto em sua altercação. Quaresma, quarenta dias. O “Anjo da Guarda” que me protege não conseguiu contra-argumentar. Tivemos que nos resignar e aceitar as evidências.
Assim, há uns 15 anos que abreviei o primeiro gole para o Domingo de Ramos.
Já não sinto as coceiras de antigamente. Não elaboro calendário para contagem regressiva. Tornou-se fácil passar este tempo sem ingerir bebidas alcoólicas. Tem me feito muito bem ao corpo e a alma.
Emagreço uns quatro quilos. Ou desincho alguns litros?
Os exames de sangue apontam melhora, substancial, do colesterol, glicose, triglicéride, ácido úrico.
É um negócio tão bom, mas tão bom, que eu deveria seguir o conselho bem-humorado de meu pai que dizia ”meu filho, porque você não bebe na Quaresma e fica o resto do ano sem beber ?”.
A observação é pertinente. Vou pensar no caso. É uma possibilidade.

(texto escrito durante a Quaresma de 2017)